Alma E-Zine


Rota Da Alma - Chapadas, Bandeiras E História No Sertão De Goiás E Distrito Federal

A chuva cai durante toda a noite do dia 02 de janeiro de 2009 na cidade de São Paulo - SP, ponto de partida de mais esta viagem da alma. Ainda tenho um pouco de dúvida sobre partes do trajeto até Alto Paraíso - GO. O dia amanhece lento e cinzento. Atraso a saída em uma hora, buscando uma definição de São Pedro, e dou partida na minha querida e confiável companheira de estrada. Mais uma viagem em busca das riquezas e belezas deste impressionante território brasileiro. Não existe nada comparável ao motociclismo de longa distância e as paisagens, pessoas e ecossistemas deste lindo país chamado Brasil. Não existe nada mais importante do que se ter a coragem e a alma livre para conhecer o mundo real e não simplesmente existir, mas sim, viver intensamente com fraternidade, respeito e liberdade.

Sigo pela Rodovia dos Bandeirantes com a meta de buscar respeitar, sempre, todos os limites de velocidade da estrada, mesmo os de impressionantes 30 km/h que surgem do nada e te fazem sentir todo o tráfego de automóveis, caminhões e ônibus, bem próximo de você, quase por cima de você. Uma forma de reeducação ou conformação, talvez. Tenho meu filho como âncora de minha viagem solitária, recebendo mensagens pelo celular dos pontos de meu trajeto para qualquer emergência. Vou pilotando na borda externa de uma grande frente fria que já afetou gravemente todo o sul do Brasil e que agora é minha companheira de viagem. Ainda não me alcançou, mas chegará. Estradas boas, busco os limites legais de velocidade para tentar alcançar a divisa entre os estados de Minas Gerais e Goiás antes do anoitecer.

Passando a cidade de Franca - SP, percebo que vou entrar na frente fria, a chuva começa a cair em Guará - SP entro em um posto de combustível para colocar uma capa de chuva sobre a jaqueta de couro sem desligar a motocicleta, e a chuva aperta. Engato a primeira quando um funcionário do posto me alerta: "Se eu fosse você não sairia agora, pois ontem deu uma chuva por aqui e aquela árvore caiu", apontando para a vítima do mau tempo. Olho para a árvore retorcida e velha e acho que pode ter caído mais pela idade do que pelo vento, quando subitamente começa um vento extremamente forte que leva a chuva para debaixo de toda a grande cobertura do pátio do posto. O vento aumenta e duas árvores jovens de uns 5 metros de altura tombam a uns 40 metros de onde estava. Desligo a moto e reflito: "Acho que o cara está certo". Espero a chuva dar uma amainada e sigo meu rumo com muita chuva.

Consigo sair da frente fria em Uberlândia - MG, a chuva para e decido, ao invés de rumar até o trevão da BR 153, seguir via Tupaciguara - MG diretamente até Itumbiara - GO, em um entardecer maravilhoso. Já são aproximadamente 19:00hs e quero chegar antes do anoitecer. Penso na coragem daqueles sertanistas pioneiros que no século XVI participaram das Bandeiras, desbravando e colonizando os sertões brasileiros. Chego em Itumbiara e decido ficar na cidade. De maneira geral, só decido onde vou ficar depois de chegar e sentir os lugares por onde ando. Algo que minhas longas viagens em solitário permitem. Gosto da cidade que está a margem do Rio Paranaíba e possue uma bonita ponte pênsil do início do século XX, construída para a visita do então presidente do Brasil, Afonso Penna.

A ponte pênsil de Itumbiara - GO
A ponte pênsil de Itumbiara - GO
A Orla Beira-Rio
A Orla Beira-Rio

Vou almoçar e abro contato com um amigo de alma livre do IFMR que também está em uma viagem motociclística com a namorada, cada um em uma moto, rumo a Serra do Rio do Rastro no estado de Santa Catarina, e iniciada em São José do Rio Preto - SP. Decidimos fazer uma ancoragem recíproca das viagens, via telefonia celular. Fico muito feliz de contar com mais amigos durante o trajeto. Decido, talvez como assim fizeram os bandeirantes em suas expedições, iniciar um rumo direto até Alto Paraíso - GO, para, chegando na região da Chapada do Veadeiros e do distrito de São Jorge, decidir se sigo, ou não, até a Chapada Diamantina, no estado da Bahia. É necessário analisar condições das estradas, tempo e logística de deslocamentos. Sigo até Goiânia - GO com muita chuva intermitente, mas forte. Se não conseguir progredir muito, posso pernoitar em Brasília - DF, ou até em Pirenópolis - GO.

Chego a Brasília lá pelas 18:00hs e após passar por todos os seus radares de 50 e 40km/h, decido seguir até Alto Paraíso. Saio da BR 020 e já encontro os inúmeros buracos da GO 118, junto com a chuva, que volta a cair em fortes pancadas intermitentes. O sol vai caindo entre as majestosas Chapadas que já surgem na paisagem e eu sigo com os olhos na estrada e seus buracos. Eventualmente admirando as inúmeras belezas que começam a surgir pela estrada. Para que eu possa ter maior agilidade nas manobras de desvio dos buracos, minha Harley Davidson e seus 300 kg exigem que ande entre 90 e 110 km/h. Tenho de ser bem preciso e cauteloso nas manobras.

Entrada da cidade de Água Fria
Entrada da cidade de Água Fria

Chego a entrada da cidade de Água Fria e não me contenho pela incrível coincidência. Mesmo com o horário super apertado, paro e tiro uma foto ao lado da placa da cidade. Meus amigos do clube Água Fria não acreditarão. Entrada para a cidade de Água Fria - GO Chego em São João da Aliança - GO e a noite cai. Estou a 40 km de Alto Paraíso e, mesmo cansado e com a pista molhada, tomo a decisão de continuar se a estrada assim me permitir. Viajo sem encontrar nenhum outro veículo na estrada com todo o cuidado possível e, incrivelmente, a estrada que até São João da Aliança estava cheia de buracos profundos, transforma-se em algo aparentemente muito confiável. Redobro a atenção e acelero para chegar o mais rápido possível.

Chego em Alto Paraíso lá pelas 21:00hs e percebendo que a pousada que eu tinha, previa e virtualmente, eleito para tentar uma acomodação é muito longe da cidade. Sigo até uma Pousada próxima ao centro e consigo um quarto. Vou até a praça e encontro o quiosque de Dona Deja, que será uma das minhas companhias de prosa durante minha estada em Alto Paraíso enquanto saboreio suas tapiocas, caldos e um licorzinho de genipapo. Para quem viaja sozinho, estas amizades de estrada são essenciais ao bom equilíbrio psicológico.

O dia amanhece em Alto Paraíso e eu já consigo, através da ótima administração da pousada, iniciar minhas expedições para conhecer a Chapada do Veadeiros e seus entornos cheios de maravilhas das águas, do cerrado brasileiro e de cristais de toda a espécie. Devido as fortes chuvas, os rios estão muito cheios e algumas trilhas tornam-se reais aventuras de trekking. Ao me banhar em um rio da chapada encontro um cristal em forma de pirâmide e acho que pode ser mais um bom sinal. Tento me sintonizar e me sincronizar com o universo. Lá me deparo, coincidentemente com a Serra de Santana, trilha da Água Fria, Cachoeira da Água Fria, nomes muito familiares para mim. Encontro um casal que percorre o Brasil em bicicleta e, como eu, encontram dificuldade em conseguir parceiros para viagens longas. Mais uma boa amizade, mais pessoas de alma livre rodando e que, de uma forma ou outra, dizem Vai encarar (.com.br) a viagem.

Cachoeira dos Cristais
Cachoeira dos Cristais
Arco-íris duplo no cerradão
Arco-íris duplo no cerradão
Vale da Lua
Vale da Lua
Jardim de Maytrea
Jardim de Maytrea
Salto de 120 metros do Parque Nacional
Salto de 120 metros do Parque Nacional
Loquinhas
Loquinhas
A base operacional em Alto Paraíso - GO
A base operacional em Alto Paraíso - GO

Depois de quatro dias e aproximadamente 40 km de caminhadas e de muitas reflexões e rituais, fecho minha estadia neste incrível pedaço de Brasil. Após me informar profundamente com caminhoneiros que estão no trecho e com pessoas que vieram do estado da Bahia para a chapada, decido que não é lógico seguir até a Chapada Diamantina. Muitos riscos e pouco tempo. Além do mais, depois de conhecer a Chapada dos Veadeiros, julgo que conhecer a Chapada Diamantina é uma outra viagem, um outro astral. Resolvo executar uma rota colonial, através das cidades históricas de Goiás, começando por Pirenópolis, após dar uma passada por Brasília - DF e sua arquitetura monumental.

Brasília
Brasília: Congresso Nacional
Brasília
Brasília: Catedral

Visito a bonita Brasília que tinha sido alagada um dia antes por fortes chuvas. Parto em direção a Pirenópolis atrás de dois focos de chuva forte que vão alagando vários lugares por onde passo. Ceilândia aparece com verdadeiros rios ao lado da estrada, pessoas isoladas em postos de combustível, e, em algumas partes, através da própria estrada. Vou acelerando entre um trânsito caótico e entre os dois focos de chuva, abre-se um arco de tempo bom bem na rota da estrada. É para lá que eu vou. É incrível como estas viagens produzem figuras de linguagem, metáforas e fantasias… ou realidades!

Alcanço a chuva e aproveito para parar em Edilândia - GO, para relaxar e me hidratar. Procuro sempre me alimentar muito bem pelas manhãs e durante o percurso do dia só parar para descanso e hidratação, com muito pouco consumo de alimentos sólidos, voltando a me alimentar mais substancialmente somente à noite. A chuva passa, a noite quer cair e eu chego em Pirenópolis e suas belas construções e seu calçamento colonial típico. Entro na pousada mais próxima da rua principal da cidade e resolvo ficar lá para conhecer a cidade e descansar. A noite encontro um bom lugar para me alimentar e curtir um pouco da moda sertaneja goiana. Como fui de moto, não pude tomar a cachacinha que o momento exigia. Guardo a moto na pousada e vou até uma Cachaçaria para cobrir esta falha. Pirenópolis, cortada pelo Rio das Almas é uma boa parada para um ser de alma livre como eu, um Alma Livre Free Soul Rider.

Pirenópolis
Pirenópolis
Rua de pedra em Pirenópolis
Rua de pedra em Pirenópolis
Igreja em Pirenópolis
Igreja em Pirenópolis
Pirenópolis
Pirenópolis

No sábado dou uma volta na cidade que começa a ser invadida em função da sensível melhora das condições climáticas da região. Como todos se dirigem às cachoeiras da região. Eu, com overdose de cachoeiras, aproveito uma cidade bonita e tranqüila. Chego à pousada pensando em dormir a tarde inteira à beira da piscina, quando me deparo com uma quase festa dos anos sessenta comandada por músicos amigos de universidade da dona da pousada, especialmente convidados para o momento. Tento me manter alheio a tudo, o que logicamente, é impossível. Gente muito boa, tarde divertida.

Parto de Pirenópolis para a cidade de Goiás (Goiás Velho), antiga capital do estado, cortando pelo interior, na rota Belém - Brasília - Jaraguá - Itaguaru - Itaguari - Itaboraí - Goiás. Passo por um pedaço de estrada de terra e estradas em péssimo estado de conservação que me fazem, de tempo em tempo, colocar a mão na placa para ver se ela ainda estava lá. E, de maneira imponente, minha motocicleta seguia impávida, permitindo uma pilotagem segura e confiável.

No meio das estradas sem sinalização, emparelhava com automóveis de moradores da região e, em movimento, ia conversando com eles sobre o trajeto a ser seguido e uma vez que esta era a única maneira de saber o caminho exato, pois não encontrava nenhum estabelecimento, moradia ou pessoa entre as cidades que estavam em minha rota. Momentos, onde a experiência de um piloto de motocicleta dedicado a viagens de longa distância é posta a prova.

Goiás Velho
Goiás Velho
Chafariz em Goiás Velho
Chafariz em Goiás Velho
Casario em Goiás Velho
Casario em Goiás Velho
Coreto em Goiás Velho
Coreto em Goiás Velho

Chego na cidade de Goiás e seu centro histórico, silencioso e expressivo. Localizo uma boa pousada passando pela casa da memorável poetisa Cora Coralina… ali, logo após a Cruz do Anhanguera. Cidade de Goiás, que já foi Arraial de Santana, que tem o Colégio Santana… mais coincidências. Passeio pela cidade à noite e tomo um sorvete de cajazinho (colhido das árvores da cidade) na sorveteria do coreto da praça principal, à luz de uma lua cheia incrível de uma noite de verão maravilhosa. Vejo tudo e todos. Vejo o que muitos, por não escutarem a própria alma, não vêem. Que pena estar sozinho em uma hora destas. Tenho o céu, tenho a lua, tenho a mim. Acordo de madrugada e vejo a constelação de Escorpião nascer por detrás das serras.

O dia amanhece extremamente claro e sob um céu azul anil violeta. Percorro o centro histórico, o mercado municipal, o Museu das Bandeiras, o Palácio Conde dos Arcos… Belos lugares! Saio a noite para comer um empadão goiano e degustar umas doses da marvada. Mais uma linda noite que prenuncia um amanhã de forte calor. Decido seguir de Goiás até Caldas Novas - GO.

A Cruz do Anhanguera e a Casa de Cora Coralina
A Cruz do Anhanguera e a Casa de Cora Coralina

Saio da cidade de Goiás, sigo para Goiânia entre irritantes limites de velocidade de 40 km/h, determinados de maneira irresponsável pelos gestores de trânsito, onde os carros, por necessitarem de menor espaço para frenagem e por irresponsabilidade de certos motoristas, se aproximam de maneira extremamente perigosa das motocicletas. Após ventos fortes, chuvas, buracos, trânsito caótico, motoristas extremamente irresponsáveis, reflito sobre a propriedade na escolha de minha fiel motocicleta para fazer este tipo de viagem que exige percorrer grandes trechos de estradas interestaduais e estradas secundárias mal conservadas. Para mim e depois de milhares de quilômetros, a Harley Davidson Softail FXSTI é uma moto quase ideal para percorrer grande parte do território brasileiro, mesmo em condições péssimas de pavimentação. Obviamente, a manutenção e a conservação preventiva de uma motocicleta deve, sempre, ser seguida a risca.

Chego em Caldas Novas e decido não ficar por lá, vou para Rio Quente e não há vagas para pernoitar. Abro navegação para Itumbiara e fico na cidade por dois dias em um bom hotel para descansar durante este período de calor extremo e seco. Pelo menos economiza pneu…

Importante é salientar que quase todos os lugares em que me hospedei possuíam rede Wi-Fi para acesso a Internet, o que possibilita uma boa conexão através de bons aparelhos celulares e / ou smartphones, sendo um recurso que, atualmente, não deve ser ignorado neste tipo de viagem de longa distância. O amigo chega de sua viagem ao sul e resolvemos nos encontrar em Fronteira - MG, onde passo um ótimo período com sua família e com amigos do Rotary e do motociclismo.

Domo
Domo
Amigos da estrada
Amigos da estrada

Parto em direção a minha morada em São Paulo - SP e, incrivelmente, após passar por trechos rodoviários extremamente mal cuidados e perigosos para o tráfego de motocicletas (que muitos podem não compreender ou não querer, mas também são veículos de transporte humano oficialmente legalizados e devidamente tributados), com buracos imensos, sou presenteado com a absurda cobrança de um pedágio na BR 153, em uma praça de pedágio que, como sempre, não tem a mínima estrutura para receber o rico dinheirinho de motociclistas que, com a impaciência dos motoristas que estão atrás na fila, teem que parar a moto, desligá-la, apoiá-la no apoio lateral, tirar a luva (obrigatória por lei), pegar o dinheiro, passá-lo para a atendente, receber o troco e o recibo, guardá-los no bolso, colocar a luva, ligar a moto, recolher o apoio lateral, engatar a primeira marcha e, enfim, seguir. Tudo muito racional e lógico. Não me contenho e digo a diligente atendente, que eu é que deveria receber para trafegar naquela estrada. Enfim, que aquele R$ 1,30 ajude os gestores da estrada a melhorá-la na salvaguarda da vida dos motociclistas brasileiros e, caso queiram opiniões competentes sobre o assunto, podem procurar a mim e alguns amigos motociclistas para auxiliá-los.

Após 15 dias de muito chão e muitas estradas, de encontrar amigos de estrada e de conviver com a amiga estrada. Próximo a Ibaté - SP aparece uma frente fria impressionante. Acelero durante mais de 20 km ao lado de sua face mais negra para, em São Carlos - SP, entrar nela que só se acalma em Jundiaí - SP. Como é bom contar com uma motocicleta segura nestas horas. Chego novamente e após mais de 4.000 km de estradas e belezas do Brasil, são e salvo no meu lar, junto à família, cães, tartaruga, flores, árvores e seus pássaros… A Tiago’s Garage que, com seu ambiente rural ancestral e simultaneamente metropolitano mundial, é lar de motociclistas e de pessoas verdadeiras e de alma livre.

No descanso
No descanso
Glaucio Gonçalves Tiago Alma Livre Free Soul Riders IFMR-S A HOG


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