Alma E-Zine


Rota Da Alma - Sul Do Brasil Parte II

A busca ao espírito dos grandes canyons continua

Uma viagem e introspecção de Glaucio Tiago

Rumo aos canyons

Pego a BR 116 com trânsito rápido e pesado: São Leopoldo; Novo Hamburgo… Decido pilotar até a noite, já que o tempo iria virar e era lua cheia. Sigo minha fuga da frente fria que se aproxima de minha rabeta. Passo Dois Irmãos, Morro Roiter, a estrada está linda ao ocaso. Os últimos raios de sol daquele dia caíam sobre as árvores e flores lindeiras na pista, exalando um cheiro maravilhoso de frescor após um dia escaldante. Estou cansado e a paisagem está linda. Então diminuo bastante o ritmo na estrada vazia e aproveito as sensações que me invadem fortemente. Paro em um belo lugar com um posto de gasolina. Decido fazer uma parada prolongada para “almoçar” junk food. Descubro que aquele lugar é um tradicional ponto de encontro de motociclistas da região. Converso com o atencioso empregado do posto e o ajudo quando chegam uns seis carros juntos para abastecer e comprar provisões.

Saio do posto, a noite cai, e sigo calma e cuidadosamente subindo a serra. Passo por Picada Café e Nova Petrópolis. Penso em parar, mas me deparo com sinalizadores para diminuição de velocidade totalmente inapropriados e perigosos para o trânsito de motocicletas, com tarugos (tachões) distribuídos no meio da faixa de rolamento, e julgo que um lugar que põe em risco a vida de motociclistas não deve ser prestigiado.

Muito, muito cansado, chego a Gramado. Vou até o centro da cidade para buscar informações e um pouso. Afortunadamente encontro uma agência do banco que uso. Estaciono a motocicleta, adentro a agência, me abasteço de dinheiro, que já estava acabando (saí com R$ 200,00/U$ 90,00, um cartão de crédito, um cartão de débito e meio talão de cheques). As máquinas eletrônicas tragam o cartão, e fico ali operando as máquinas e rezando para que elas não engulam meu cartão.

Saio da agência, vejo um homem bem vestido caminhando e conversando com motoristas de táxi. Deve ser bem informado, pensei. Abordei-o e ele de uma maneira extremamente gentil me indica uma Pousada confortável, e pede que eu fale em nome dele para que tivesse o melhor atendimento possível. É um dono de um bom restaurante do centro de Gramado e com certeza, um ótimo cidadão brasileiro. Este país e seu povo são realmente maravilhosos. Ah! Os governantes são outra história…

Chego à pousada, uma bela e grande casa, identifico-me e a dona se mostra agradecida pela gentileza do dono do restaurante. Lembro que estou em uma rota turística denominada Rota Romântica e disparo: “A senhora pode oferecer um pouso confortável e um desconto no preço para um motociclista solitário que viaja pela rota romântica?”. Ela prontamente diz: “Fazemos qualquer negócio para agradar nossos clientes”. Tranqüilizo-me e vou escolher um dos apartamentos disponíveis. Caio na cama quase morto, e descanso um pouco vendo um telejornal de Sampa. Ligo para casa, passo um torpedo com a minha posição. Vou para o banho de camiseta e meia para lavá-las mais facilmente.

Putz, que dia longo e produtivo: Termas do Gravatal, Torres, Lagoas do RS, Free Way, HD/Porto Alegre, Museu de Tecnologia, Serra de Gramado. E, que calor! Mas agora o tempo vai mudar. Apronto tudo para o outro dia, analiso rotas para os aparados da serra gaúcha e penso em sair para tomar uma sopa. Caio na cama e desmaio de cansaço.

A manhã ainda não é chuvosa. Tomo um café da manhã maravilhoso e vou dar uma volta por Gramado na manhã do sábado. Paisagem urbana alpina e roupas de couro. Paro para tirar uma foto do cinema onde ocorre o Festival Internacional de Cinema de Gramado para o João Pedro e volto para a pousada. Acerto as contas, carrego os alforjes e começa a tocar: “Eu voltei agora para ficar, pois aqui, aqui é o meu lugar…” Talvez eu estivesse voltando para mim mesmo e aquilo fosse só uma trilha sonora desta minha jornada íntima e pessoal.

Ligo a motocicleta. A dona da pousada segura o cachorro, sentada em um banco. Acelero e contínuo minha rota. O céu está escuro, mas decido arriscar e não ponho a minha roupa de chuva. Sigo as placas, mas, como sempre, nas rotatórias não há sinalização. Começo a descer uma estrada bonita, ando uns três quilômetros, emparelho com um ciclista que dirige no meio da pista e pergunto: “Este é o caminho para Canela?” Ele, meio vesgo, boca torta e cara de louco diz, após me olhar com a cabeça inclinada: “Não!”. Confio no maluco, dou meia volta e pego o rumo certo.

A chuva começa a cair forte ainda na saída de Gramado. Paro e me equipo. Passo por uma Canela meio alagada em pontos e sigo para São Francisco de Paula.

Qual rota seguir na Serra Gaúcha? São tantas as emoções

Qual rota seguir na Serra Gaúcha?
Esperando pelo meu Kikito de Ouro em Gramado
Esperando pelo meu Kikito de Ouro em Gramado…

Navegando nos Campos de Cima da Serra

A estrada vazia, o vento frio e úmido e as pancadas de chuva forte. Sozinho na estrada, começo a marcar pontos habitados, caso a chuva e os ventos aumentem muito ou tenha algum problema. Passo São Francisco de Paula. Sigo para Tainhas. Não vejo um único carro a quase uma hora. É muito bom, mas exige uma pilotagem muito segura por caminhos amplos e desconhecidos.

Tem uma enorme nuvem de tempestade há uns 3 km do meu lado direito. Acelero e penso: “Você não vai me pegar”. Cruzo com um carro e pego o trevo para Cambará do Sul. As paisagens vão mudando e a nuvem negra fica bem para trás. Chego a Cambará. Cidade pequena e hospitaleira. Paro nos postos de gasolina para me informar sobre pouso e guias para os canyons. Em um dos postos uma mulher segura e solícita me fala: “Fique na pousada X, fale com o taxista Y para ir aos canyons amanhã, e vá ao restaurante Z para se alimentar”.

A cidade é cheia de casas de família que funcionam como pousadas. Vou ver uma e não gosto, sigo as “ordens” da boa senhora. Fecho com a pousada, fecho com o taxista e sigo para o restaurante. Estaciono a Harley na porta e entro em um ambiente calmo e aconchegante, apenas com dois casais. Peço uma cerveja e acho que estou no paraíso.

A tempestade chega forte; a placa do restaurante oscila perigosamente sobre a Harley. Chega um ônibus de excursão com velhinhos animados, tirando uma fina da motocicleta. Começam a surgir goteiras por todo o restaurante, a luz acaba. O paraíso tornou-se um inferno em dilúvio. Saem os casais, saem os velhinhos e a chuva para. Tomo um copo de vinho, uns goles de garapa e vou para a pousada, onde os perlinongos acabam com minha noite de sono. Não entendo: tão alto, tão frio e cheio de mosquitos!

Cambará do Sul
Cambará do Sul

Visitando os espíritos dos canyons

Domingo cedo e o táxi na porta. Saímos rumo ao maior canyon e mais difícil de ver, o canyon Fortaleza (segundo maior canyon do Brasil com aproximadamente 8 km. O primeiro é o Guartela no Paraná, que tem 40 km [sexto maior canyon do mundo]). A neblina é forte, chego ao final de uma trilha extensa e não enxergo um palmo à minha frente. Sento em uma pedra e descanso longa e solitariamente. Tranqüilizo-me pela falta de visibilidade e, como em um passe de mágica, o canyon começa a aparecer imponente, sob um sol pálido. A sensação é maravilhosa e extasiante, parecendo um presente dos deuses dos grandes canyons. Tudo é muito grande e majestoso.

Resolvo seguir mais uns 2km pela beira do canyon. Vejo as planícies costeiras a uns 20 km. Começam a chegar algumas excursões turísticas, e após 40 minutos de canyon aberto ele vai novamente se fechando na densa neblina. Acho que os espíritos dos canyons não gostam de multidões. Faço um pequeno ritual pessoal, lanço uma oferenda inofensiva aos deuses dos canyons e desço a trilha.

Vamos para o canyon Itaimbezinho, 30 km distante. A paisagem é maravilhosa, mas menos grandiosa que o Fortaleza. Não dou muita sorte e o canyon fecha rapidamente sua cortina nebulosa.

Chego a pousada a tempo de assistir um clássico do futebol local da varanda, começo a escrever neste diário e a noite cai com relâmpagos no céu. Cruza uma vaca preta na tranqüila rua, bem na frente de onde estou. Que sinal pode ser este? Tomo uns tragos em um bar, verifico a motocicleta e durmo em dúvida sobre ficar mais um dia para descansar, ou seguir minha viagem.

O dia amanhece pálido e chuvoso. Decido iniciar minha viagem de volta. Descubro, dias depois, que encarei um dos mais chuvosos momentos do quadrimestre de 2006, na região de divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

O caminho para o Rio do Cedro
O caminho para o Rio do Cedro
A impressionante, estonteante beleza dos canyons
A impressionante, estonteante beleza dos canyons
Mais uma vista chapante
Mais uma vista chapante
I'm the king of the canyon!
"I'm the king of the canyon!"

Hora de voltar

Tenho aproximadamente 700km para percorrer neste dia. Inicio a viagem em direção a Caxias do Sul. A Rota do Sol está vazia, acelero para adiantar o expediente e fugir das tempestades mais fortes. Surge um retão longo. Vou acelerando forte quando na outra ponta surge um caminhão ruidoso assustando um bando de patos selvagens em uma lagoa logo a minha frente. Começo a frear assustado, enquanto os patos vão levantando vôo lentamente. Aproximo-me perigosamente dos patos que estão na altura de minha cabeça. Sem opção, freio fortemente e rezo para a motocicleta não espalhar feio na pista. A manobra funciona e de cabeça abaixada, cruzo os patos a uns 30 centímetros de minha cabeça. Incrível e inusitado. Nunca tinha me deparado com este tipo de perigo. Já desviei, principalmente à noite, de cães, vacas, cavalos, tatus, raposas, etc…, mas patos lerdos na decolagem, nunca. Vivendo, rodando e aprendendo.

Chove, para, cai tempestade, para… Entro na BR 116 e entre uma e outra pancada de chuva aprecio a belíssima paisagem da serra de Caxias do Sul. Estou sozinho na estrada. Acho que só eu não sabia da pessimista previsão de tempo. Sou parado no posto da polícia rodoviária de Vacaria/RS em uma situação muito estranha. Peço auxílio no que diz respeito às condições climáticas e rodoviárias no trecho de 300 km de BR 116 que preciso percorrer até Lajes/SC e não obtenho resposta. Reclamo de ter sido parado naquelas condições e sou liberado com olhares não amistosos da chefia do posto. Ando sempre equipado e com a moto em perfeitas condições técnicas e legais. Tantos veículos em mau estado na estrada. Tantos buracos e máquinas agrícolas, e a fiscalização é efetuada sobre um motociclista viajando solitário, prestigiando as belezas naturais e humanas do Rio Grande do Sul. Tudo muito estranho e triste!

A chuva aumenta, sigo a viagem até Lajes onde realmente a coisa fica preta. A chuva para um pouco e aparece no horizonte uma barreira negra há uns 5 km. Iria pegar a BR 282, mas decido continuar na BR 116 que segue em uma direção aparentemente paralela a enorme nuvem negra. A estrada serpenteia e dou de cara com a tempestade. Dou meia volta e sigo voando em direção à BR 282. Já na 282 pego uma ponta da tempestade, que é uma das piores chuvas que já vi na estrada. As marcações da estrada somem no dilúvio. Os carros e caminhões andam pelo acostamento e pela contra mão, totalmente desorientados. Rezo para aparecer um abrigo, que não aparece. Entro no trevo para Octacílio Costa e a chuva para, como se tivessem desligado um chuveiro. Está ficando tarde; acelero na BR 470, paro no posto do encontro em Rio do Sul, onde fui muito bem tratado na ida e então me sinto em casa.

A chuva diminui, descanso um pouco e sigo rumo a Pomerode. É segunda-feira e vou tentar chegar na pousada em que fiquei na ida. A chuva vai diminuindo e começa a escurecer. Paro em Timbó para abastecer e cai um trovão assustador. Olho na direção de Pomerode e vejo vários relâmpagos assustadores. Monto rapidamente na motocicleta e saio acelerando no trânsito louco da curta e bonita estrada entre Timbó e Pomerode. Chego sob um vento alucinante. Entro na garagem da pousada e a tempestade despenca fortemente. Disparo ao recepcionista: “Vocês guardaram meu quarto?” e ele me tranqüiliza: “Lógico!”.

Que dia! Será que este era o sinal da vaca preta? Resolvo ficar um dia por lá para descansar. Vou ao Zôo, ao Museu do Marceneiro, a Casa do Imigrante, ao Museu Pomerano do admirável Sr Egon Tiedt e D. Helena, vou a uma reunião do Rotary, etc. Vivi um belo dia pomerano.

Casa do Imigrante Carl Weege, que, como mostra a imagem, chegou de Harley Davidson a estas paragens.
Casa do Imigrante Carl Weege, que, como mostra a imagem, chegou de Harley Davidson a estas paragens.
O Museu Pomerano com o Sr. Egon Tiedt e Dona Helena
O Museu Pomerano com o Sr. Egon Tiedt e Dona Helena

Recarregar as energias com um barreado

Quando iniciei a viagem, imaginei que poderia ir, ainda, a Foz do Iguaçu ou ao Pantanal. Mas as paisagens foram tão maravilhosas, os amigos e lugares tão generosos que, satisfeito, decido ir até Morretes/PR comer um barreado e depois subir para casa em Sampa.

Garuva, Guaratuba, balsa para Caiobá e Matinhos. O dia está fresco e úmido, vou até Antonina e volto um pouco para me hospedar no hotel mais antigo de Morretes. A Harley é guardada no depósito e lavanderia do velho e charmoso hotel. Caixas de tomate, frutas e verduras, máquinas industriais de passar roupa, latas de óleo de cozinha, e a Harley lá em uma combinação entre o surreal e o muito apropriado. Era só mais um equipamento que estava ali, pronto para o uso. A chuva cai forte lá fora. Abro a janela e fico observando as curvas do rio Nhundiaquara, absorvendo o frescor da mata atlântica que circunda a cidade.

Como o famoso barreado da Dona Glorinha, que ainda mantém a receita tradicional e o sabor do verdadeiro e premiado prato morretense. Converso um pouco com ela para sorver um pouco de sua educação, calma e sabedoria.

O portão do depósito é aberto. O sol aparece e o velho hotel fica para trás. Subo a bela Serra da Graciosa, tranqüilo e lentamente, para aproveitar um pouco de calma antes de adentrar à mal afamada estrada Regis Bittencourt e seu tráfego violento. Paro no Portal da Serra e faço um último registro fotográfico. Entro na autoestrada e sigo singrando o asfalto entre grandes caminhões, depressões profundas e buracos no asfalto. Passo por uma tortura na Serra do Cafezal, onde um caminhão quebrado naquele absurdo rodoviário brasileiro me obriga a queimar constantemente a embreagem, em razão do deslocamento de pesados caminhões a 10 km/h na subida. Sem possibilidade de ultrapassagem, sem acostamento e, inexplicavelmente, sem áreas de refúgio. Um crime contra os milhões de usuários da autoestrada.

No meio da tarde começo a acelerar mais, para chegar em São Paulo/SP antes das constantes e perigosas tempestades de final de tarde no verão. Passo o tradicional e perigoso ponto de alagamento de Taboão da Serra. Não ando mais do que 100 metros após e a tempestade despenca. Paro em um posto de gasolina, abrigado e vivo após esta jornada mental, temporal e espacial. Pergunto se o lugar alaga. Com a negativa da resposta, sento em uma lanchonete para tomar uma cerveja, relaxar e esperar a forte chuva passar.

Cruzo a cidade em meio a um trânsito amistoso e chego em casa: a Tiago’s Garage; a minha família; as minhas árvores e seus pássaros; aos meus cães, flores e bichos.

Aliviado pelas belezas dos lugares, das estradas que segui, e dos povos com os quais convivi durante 10 dias e 3540 km rodados, tiro o peso dos alforjes da motocicleta, já um pouco combalidos de tanto chão, e adormeço na tranqüilidade de um lar equipado com tecnologias e confortos que, embora incomparáveis, não substituem a liberdade da estrada e à beleza da imensidão das paisagens deste lindo país.

Queimando o barreado em Morretes, PR.
Queimando o barreado em Morretes, PR.
Portal
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Mas as aventuras não param por aí. Ainda pretendo ir ao Pantanal, às Chapadas Diamantina, dos Veadeiros e dos Guimarães, etc, etc...

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