Alma E-Zine

São Thomé, O Resort De Pedra.

Uma viagem e introspecção de Matias Romero

Contém:

Fase Racional: O Fator Edu Da Flauta.

"Eu tive que subir lá no alto para ver. Energia Racional, a verdadeira luz da humanidade."
Sebastião Rodrigues 'Tim' Maia, Racional

I. Universo Em Desencanto

Eduardo é estudante da Cultura Racional - a mesma que levou o finado Sebastião Rodrigues Maia, o popular Tim Maia a uma revolução espiritual nos anos 70. A revolução, no caso de Maia levou seis meses apenas, mas prolonga-se na existência de Edu da Flauta. Edu tem certos problemas com álcool, só superados por sua simpatia, cooperação e solidariedade com as pessoas. Vou encontrá-lo no cafofo ao lado do chalé onde Rosângela e Cláudio moram, no sítio. O cafofo é aberto e coberto, ele dorme sob um cobertor, usando protetores auriculares para evitar os mosquitos que chegam perto de seus ouvidos e não o deixam dormir. Tem estado nesse esquema há dias já.

Boca da noite em São Thomé das Letras
A beleza do ocaso na boca da noite de São Thomé das Letras, vista do Camping do Noel, quando eu e Edu da Flauta nos dirigimos para a cidade.

À noite, saímos para a cidade nua e crua de São Thomé das Letras. Eu não pensava em sair da roça para a cidade, mas fui. Em marcha, no meio da escuridão, começo a cantarolar músicas de Tim Maia, do disco Racional:

"Da Planície Racional, uns desceram sem razão, quando o Sol começava. Nasce o homem e a mulher, da resina e da goma, quando o Mar começava..."
Sebastião Rodrigues 'Tim' Maia, Racional

Isso é o bastante para entusiasmá-lo, embora ele tenha certas reservas quanto ao tempo em que Tim Maia foi estudante do Universo Em Desencanto. "Eduardo, você está em plena Fase Racional!", ele disse. Vejo-me obrigado a concordar, já que segundo o livro de Manoel Jacintho, estamos todos nós.

Um movimento. E só Edu da Flauta parece tê-lo percebido. Ele me diz que está bem próximo e ouço um miado minúsculo vindo da esquerda da pista, no breu em que nos encontramos. Acendo a lanterna e eis que um gato tão minúsculo quanto o miado aparece próximo de nós. Com jeito, Edu da Flauta pega o bichinho minúsculo e o leva no colo. Edu da Flauta me explica que dentro da Cultura Racional, o gato é visto como o ser que faz a ponte entre o mundo em que vivemos e o mundo inferior. Nem me atrevo a perguntar qual é a do tal mundo inferior. Na cidade, o gato minúsculo pula dos braços do Edu da Flauta e vaga feliz por entre as muitas pedras e estruturas da entrada de São Thomé das Letras.

II. Ouvindo Vozes

Na noite seguinte, as conversas de Edu da Flauta sobre a Cultura Racional se renovam e ele me conta dos congressos havidos no Rio de Janeiro, a vida dentro da Cultura Racional. Numa curva, distinguimos perfeitamente o alarido de vozes descendo a serrinha até fatalmente cruzarem o ponto onde estamos. Ouvindo bem, notamos que é o alarido de uma só voz. Gritada, altíssima dentro do silêncio da noite. Xinga tudo e a todos e não se encontra mais tão distante agora. Olho para minhas roupas e são escuras. Edu da Flauta tem roupas escuras também, mas uma camisa branca. Se ficássemos parados na escuridão, ele passaria ao nosso lado e não nos veria. "Mas a camisa branca vai atrapalhar os planos", pensei.

Proponho que nos escondamos numa curva do caminho, de onde poderíamos observar a tudo sem sermos vistos e seguimos rapidamente para lá, já que a voz agora parece estar a uma curva de nós apenas. Com efeito, assim que nos escondemos, a voz e o dono da voz surgem na curva da estrada, vindo em nossa direção. É difícil precisar o que faz um homem descer um caminho de serra com três quilometros de extensão xingando o mundo sem parar para tomar fôlego, mas o consenso entre nós dois é de que ele precisa urgentemente de um psiquiatra. A voz vira numa outra curva e prossegue em sua descendente até o vale do Cantagalo. Ainda podemos ouvir os xingamentos se dirigindo cada vez mais lá para baixo e seguimos para a cidade, comentando o sucedido sem parar.

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Eram Os Deuses Astronautas? O Fator Oriental

I. Vigília

Oriental Luiz Noronha, o Tatá, é outra figura carimbada de São Thomé das Letras. Ufólogo, mereceu certa vez página inteira do suplemento de turismo da Folha De São Paulo. Ele tem pousada tanto na cidade, na Praça Do Rosário quanto na roça. Organiza vigílias no Cantagalo, em lugares como a Pedra Do Disco, ponto onde os adeptos da Comunidade Harmonia também vem assombrar. Dali se podem observar fenômenos como o Boitatá - que não é parente do Tatá, apesar da terminação - ou a Mãe do Ouro, luzes errantes sem explicação fácil que rondam as colinas do Cantagalo à noite.

II. Apareceu. Eram 23:55

E eis que aparece uma luz, durante uma vigília. Dança e muda de posição a todo momento, exige ser compreendido como enigma da antiguidade. Um exame mais criterioso revela um papagaio com uma luzinha amarrada, empinado durante a noite para aquecer o entusiasmo dos adeptos dos deuses astronautas. Anedota ou não, essa é uma das muitas histórias que secretamente se entreouve em São Thomé das Letras.

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O Fator Zebu: Matias Romero e dinamite

Sentado na casa do Waldir no centro de São Thomé das Letras, conversando sobre as levas de orcs que sobem para o Cruzeiro aos magotes, sem controle e com alegria. Esperando por Zebu, do Rio de Janeiro, que vem conhecer o potencial lisérgico de São Thomé. Esperando durante a viagem em si, naquele momento eu nem cogitava quando o assunto no alpendre era música e especialmente a música que eu Waldir produzíamos sob o codinome Casa De Ervas. Um carro encosta na casa do Waldir, um velhinho no banco do carona olha para mim e pergunta se eu sou o cara e diz meu nome. Não pode ser. Zebu não pode ser assim tão velho. E não é. Ele é o cara na direção do carro. O velhinho se despede e não há meio de convencê-lo a aceitar carona de volta à Inês.

Inacreditável. Depois de anos conversando sobre substâncias psicodélicas na Internet, ei-lo aqui em carne e osso. Primeira vez que o vejo pessoalmente. Temos muito para conversar, quando entramos na casa do Waldir e ele é apresentado ao resto da gang: Rivaldo, Lucas, Glácia, Cida, Waldir, Lu, Gabriel, Bruxo e sua mina.

A Louquíssima Trindade: Marcus, Giulius e Guadalupe

Eles vêm de Santos para uns dias em São Thomé das Letras quando já estou aqui há vinte dias, para ir embora. Quer saber? Vou ficar com esse povo mais uns dez dias, voltar de carona com eles. Guadalupe é nativa do porto de Santa Maria de Buenos Aires, namora o Giulius há uma cara (gostaram tanto um do outro que acabaram se casando). Não é a primeira vez que a vejo, mas conviver como expedição letrense é a primeira. Eles acampam na casa da Inês e saímos para longos passeios juntos.

I. Eubiose: Descoberta

E eles se deliciam com a descoberta de outros pontos da Eubiose. Pequenos saltos, lâminas d'água atrás das quais há pequenas grutas onde se pode passar momentos inigualáveis e refrescantes, prainhas de areia grossa como pó de pedra, mica, quartzo; mata ciliar.

II. Noites De Rock'N'Roll

À noite subimos a colina para a nossa eterna opção noturna: o Espaço Dois, trailer, Bar do Maurão e principalmente os arredores. Indispensável sentar no Cruzeiro à noite, vigiando os céus atrás de discos voadores, rememorando antigas viagens, astrais ou físicas, saboreando as atuais.

III. Na Ladeira Do Amendoim

A Ladeira Do Amendoim fica nos arredores de São Thomé, no caminho para Três Corações. Você põe o carro na ladeira e ele sobe até certo ponto. A explicação mais comum é a de uma ilusão topográfica, que faz uma descida parecer uma subida. Mas confesso que eu mesmo não cheguei a qualquer conclusão sobre isso. Guadalupe ficou se divertindo um monte na direção do carro.

IV. Carimbado

A caverna do Carimbado fica na mesma área da Ladeira Do Amendoim. É basicamente uma caverna tubular, estreita. A caverna do Carimbadinho é próxima e de passagem mais larga por dentro. O motivo do nome você só descobre ao olhar suas roupas ao sair. Fico na boca da caverna enquanto a Louquíssima Trindade expediciona lá dentro.

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Espaço aleatório

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