Contém:
Olhando, vejo adesivos de toda sorte. Motoclubes mil representados ali. Matilhas de motociclistas varrem a escuridão da noite, dividindo a praça com raios alaranjados diversos. Irmandades que passam em tropas ou em vôos solo, como diz o Glaucio. E os motoclubes chegam, dominam a paisagem. A Matriz é seu quartel-general, a cerveja jorra das fontes murmurantes das quais um dia o poeta falou; Raul Seixas e Zé Ramalho profetizam de dentro dos bares. É um espetáculo multicolorido de roupas pretas e comunhão generalizada pra ver pra crer em São Thomé.
É possível entrar um trem no seu olho? Em Minas isso é perfeitamente possível, ainda mais em dias de vento seco no inverno quando a poeira domina as estradas noite e dia. A expressão trem pode se referir a virtualmente qualquer objeto ou conjunto de objetos que se possa imaginar. O uso do olho humano como estação ferroviária assusta e assombra em muito os não-iniciados ainda em nossos dias.
À noitinha, trazendo mais alguns pedaços de lenha. Iniciamos a fogueira em meio ao frio cortante, onde esse ano o alto da cidade está muito mais quente que o Cantagalo. Fazemos a fogueira sobre uma churrasqueira de tijolos feita pelo Cláudio. O bosque é breu puro na noite aberta que inicia. Carloa intervém, empurrando o tronco para avivar o fogo, mas só consegue mesmo é jogar os tijolos no chão, desconjuntando descabeladamente a argamassa da parede.
Sim, meus amigos, e logo todo o seu poder transformou a churrasqueira em ruínas, constrangendo Carloa por alguns dias, até que Cláudio dissesse que iria ter de reconstruir aquilo de qualquer jeito.
Armando levantou acampamento. Compromissos o mantém sempre voltando, às vezes antes mesmo de vir. O mesmo aconteceu com Paulão e Carlinho. Minha esperança era voltar com o Carlão, mas ele tinha trazido até a pia da cozinha. É aniversário dele amanhã; ele pretende passar o aniversário com a mãe em São Bernardo.
...chegam Bruno e Raquel, dispostos a curtir uns dias em São Thomé das Letras. Fazemos amizade rápido, o cara é gente boa e adora música, Photoshop e web design. Conversa perfeita para sempre que nos encontramos.
Pois não é que a família Carlão retorna para mais algumas horas de delícia e prazer a nosso lado? Aquela velha prolongada na viagem que o Carlão sempre arranja na última hora. Ele vai passar o aniversário no Camping do Noel. Freguês antigo, consegue um dia grátis e um bolo de aniversário feito pela Rô. Não é necessário dizer que o bolo estava delicioso porque eu já disse que ele foi feito pela Rô.
Dia de rachar lenha com o Cláudio. A candeia é forte, resistente, vou abrindo caminho na madeira com dificuldade que Cláudio não conhece mas entende. Enchemos o carrinho de mão, levei a primeira leva para Dona Maria, mãe do Cláudio e da Valdete que vive com ela na casinha próxima à entrada do sítio.
Conheço Dona Maria há anos, bem uns quinze, mas nunca tinha estado tão próximo. Hospitaleira, ele faz um almoço da roça, simples como o dia-a-dia e delicioso como os dia-a-dias não conseguem ser, por mais que tentem. A conversa com Dona Maria e Valdete sobre o mundo do Cantagalo, sentar no terreiro atrás ao lado do paiol, fumar um cigarrinho de palha. Que mais pode a vida oferecer?
Jovem carioca arma barraca no topo da colina, próxima ao chalé do Cláudio e da Rô, a visão do cerrado servindo de cortina e forração. Ela pouco passa dos vinte, mas viajando sozinha pelo Brasil, tem histórias de monte para contar. Cláudio empresta a ela interessante livro sobre São Thomé das Letras compilado por Ricardo Kayapó, forasteiro que como muitos se apaixonou por São Thomé. Ela levava o livro em suas incursões pelas matas e cachoeiras; mais de uma vez fui encontrá-la absorta na leitura do livro pelas muitas corredeiras da Eubiose.
Existe um momento certo para se ficar e um pra se ir. E esse, infelizmente é o momento de ir. Quando a gente olha em torno e descobre que não há ninguém de fora na cidade a não ser você. E se você fica, ou é milionário, ou vive de renda ou é nativo ou é louco. Ficar mais implicaria em ter de arrumar um emprego por aqui e me sustentar. Não voltar mais para Santos, não olhar para trás. Deixar para trás toda uma existência em favor de outra, possível, mas dificílima.
Vítor me empresta dez reais para inteirar a passagem para Santos. Deixo a cidade, para desta vez ficar longo tempo sem aparecer. O por-do-sol na minha despedida é lindo. Como que um último convite de São Thomé das Letras a que eu refletisse melhor e ficasse mais. Mais de uma vez pensei em ficar de vez, mais de uma vez a tentação veio forte sobre mim. Mas talvez a grande graça de tudo isso seja mesmo o fato de não morar aqui. Talvez o grande segredo que mantenha São Thomé das Letras longe da banalidade seja o fato de ser tão longe e tão perto de nós, pobres criaturas engaioladas daqui. Talvez seja a partida, com a esperança de um dia voltar. E também com a esperança de que a ausência seja breve.
1444 m na Praça da Matriz, 1500 m no Alto Do Cruzeiro
Tropical de altitude, ventos freqüentes especialmente no alto da cidade. Chuvas são constantes no verão, assim como a nebulosidade, dependendo do ano. O inverno é seco e os céus limpos e absolutamente estrelados, com visibilidade máxima. A vegetação vai desde aquela típica do cerrado, com árvores infrequentes e descampados até densas matas ciliares no entorno dos rios. Araucaria brasiliensis é também algo encontrada.
De São Paulo, pela Fernão Dias, tomando-se o caminho do Circuito Das Águas a partir de Pouso Alegre. Do Rio de Janeiro, pela Via Dutra. De Três Corações, após o Circuito Das Águas, dista apenas 38 km, hoje convenientemente asfaltados até São Thomé das Letras.
O posto de gasolina é de fácil acesso, ao chegar à Praça Do Rosário. Seguindo aquele trecho é fácil encontrar funilaria, oficina de reparos e borracheiro. Há um borracheiro pra lá de simpático, o Flávio, exatamente na saída para o Cantagalo.
Em geral, bastante em conta mesmo para o visitante desavisado.
Álcool, drogas e penhascos não se misturam. Não banque o herói ou palhaço para além do Cruzeiro ou Pirâmide, especialmente à noite quando a visibilidade fica algo prejudicada pelo breu noturno. Jamais mergulhe, especialmente de cabeça, em poços cuja profundidade você não conhece. Evite o movimento maciço de grandes eventos na cidade como feiras intermunicipais, etc. Roubos e mesmo assaltos não ocorrem em torrentes, mas nem por isso são impossíveis na cidade. Durante festas e eventos de grande movimento, mantenha a casa/quarto trancado e evite deixar valores à vista no carro.
Fotos e texto por Matias Romero