Alma E-Zine
Um Olhar Ancestral Sobre
Pablo Amaringo
A arte do consciente alterado
Uma introspecção de Matias Romero
Muito provavelmente algum dia, todos nós (ou pelo menos a maioria) já olhamos uma outra coisa de um modo diferente, mesmo que por uma mera casualidade. Muitos o fazem todo o tempo, outros quase nunca, mas em pelo menos uma fase de nossas vidas - a infância, geralmente - olhamos o mundo por um breve instante de um modo totalmente novo e diferente daquilo que nos é empurrado por nossas tradições e culturas, especialmente a cultura de massa. Em certos casos, o poder desse novo olhar pode ser apenas um breve vislumbre de todo um novo mundo, todo um novo leque de possibilidades. Ou nos transformar para sempre.

O segundo parece ser caso de um artista peruano que atende pelo nome de Pablo Amaringo. Aos 10 anos de idade, ele foi apresentado a um líquido cor de tijolo, de sabor acre e desagradável, uma beberragem feita com cipós e folhas da Amazônia denominado ayahuasca. Acabou se tornando um curandeiro, aprendendo os icaros, ou as canções de cura que lhe ocorriam dentro dos transes psicodélicos causados pela bebida.

Mas não apenas as canções lhe ocorriam em meio aos transes, visões de mundo do qual nem se poderia suspeitar o visitavam também, todo um mundo novo visual sugerido pela ayahuasca influenciaria para sempre o seu modo de pintar: era ele, como já disse um daqueles que viu o leque infinito de possibilidades a partir de suas experiências e procurou traduzir isso em telas e pinturas.

Se voltarmos à nossa história recente, veremos que muitos, se não todos aqueles envolvidos na grande revolução da informática, veremos o mesmo componente visionário das experiências xamânicas de Amaringo, só que no caso da informática regado à dietilamida número 25 do ácido lisérgico, ou LSD, como o foi no caso de Steve Jobs e Bill Gates, respectivamente os criadores da Apple Computers e da Microsoft. Pensando bem, não foi Timothy Leary, brilhante pesquisador expulso de Harvard por querer compartilhar o mundo novo que o LSD trazia com a universidade, quem disse que o computador e a realidade virtual eram as novas drogas da expansão da mente?

Paralelo a isso, imperturbável a toda a hype provocada pelas substâncias psicodélicas em corações e mentes do mundo ocidental a vida segue calmamente no Peru e em tantas outras comunidades pela América Central, do Sul, do Norte, África, Sibéria nas quais as substâncias, longe de provocar todo o horror e a apreensão que provocam no seio do Ocidente, são parte integrante da cultura local, seguem e seguirão provocando sonhos e abrindo as portas daquele mundo novo que Pablo Amaringo tão bem soube antever naquele dia em 1953.

Publicado originalmente em Radiola Santa Rosa.
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