Alma E-Zine



Rota Da Alma - Sul Do Brasil

A Busca Do Espírito Dos Grandes Canyons

Uma viagem e introspecção de Glaucio Tiago



Pé na estrada

A Harley sai da revisão em 08 de março. Os bons amigos da Harley Davidson-Jardins, em São Paulo/SP - Brasil, acham-na ótima e não recomendam preocupação com peças sobressalentes durante os próximos 6 ou 7 mil quilômetros. Dia 12, preparativos para a viagem: alforjes já equipados e instalados na motocicleta. A regra é rodar o dia inteiro, evitar o máximo possível as estradas de tráfego intenso para poder aproveitar as paisagens, dormir em cidades pequenas, e decidir o roteiro do dia no café da manhã antes das saídas.

Inicio a viagem às 10:00hs do dia 13. Sigo a rota dos tropeiros e as 11:30hs estou em Itapetininga/SP. Viagem técnica e tranqüila, tempo bom. A partir da divisa do Paraná a paisagem muda e tudo começa a ficar mais leve e bonito, cheio de araucárias e paredões de arenito. Onde estou? Onde me encontrarei?

Novas experiências, pagar pedágio de motocicleta. A motocicleta é um catalisador de percepções e pensamentos. Rodo 650 km e estou em Prudentópolis/PR. Não consigo contatar um receptivo turístico para ver as grandes cachoeiras que existem na região. Verificarei um contato agora.

Torpedo de posicionamento, ligação para a família. Pontuar o mapa da viagem para os entes queridos. A segurança que a tecnologia atual permite. Consigo encontrar uma saída para a dificuldade de localizar alguma agência de turismo que leve as cachoeiras um viajante solitário. Um gerente de um hotel consegue contatar um taxista disposto a me levar até as cachoeiras. Volto ao hotel onde, em meio aos muitos caixeiros viajantes hospedados, fico na janela do quarto, estrategicamente escolhido na frente do hotel, para poder observar o cotidiano de uma cidade do interior do Paraná. Incrível como as pessoas adoram fazer “footing” automotivo com o som dos carros no último volume.

A entrada de Prudentópolis - PR


As grandes cachoeiras

Acordo e tomo o café da manhã, observo as pessoas, gente centrada em seus afazeres. Chega o taxista. Lá vamos nós rumo às cachoeiras. Não espero encontrar grandes coisas, até que me deparo com a segunda cachoeira do roteiro escolhido pelo taxista. Fico bestificado com a grandeza e beleza do espetáculo natural. Absolutamente lindo e perdido nos rincões deste país continente. Seguimos até o alto da cachoeira por uma estrada no meio de plantações de erva mate. Vou abrindo as porteiras do caminho, como um “Zequinha” dos Jeeps. Chegamos ao alto e o espetáculo é lindo.

Assim foi o dia: paisagens exuberantes; muita caminhada; terminando com uma descida e subida de 550 degraus rumo a uma pequena usina hidrelétrica ao lado de um paradisíaco lago onde caia uma cachoeira onírica de 90 metros de altura. Não me contenho e nado até o meio do lago, onde há uma grande pedra e pode se sentir o forte spray da água da cachoeira. Perco o medo e fico nadando, sendo levado pela correnteza não tão forte do rio que segue pedregoso.

Chego ao hotel e, após espionar a população local, desmaio de cansaço por duas ou três horas. Levanto, pego o equipamento fotográfico e saio para capturar imagens de um pedaço da Ucrânia no Brasil. Jantar na churrascaria, café da manhã, regulagem dos suportes de alforjes “na mão”, montagem dos alforjes e sigo rumo ao segundo destino: Pomerode/SC à aproximadamente 550 km.

Manhã fria, estradas com o asfalto sem buracos, mas ondulado e com sulcos fundos de rodagem, devidos as cargas de soja em zilhões de toneladas rumo ao porto de Paranaguá. Atenção redobrada e: pedágios ! Pago o último e pego a estrada secundária rumo à cidade de Lapa. Rodo sozinho durante 1 ou 2 horas. Faço reflexões sobre a segurança e responsabilidade de se rodar solitário em estradas secundárias desertas. Espanto os fantasmas, me concentro e acelero. Agora faz muito calor. Passo Lapa e pego uma estrada cheia de buracos até Campo do Tenente/PR, onde acesso a BR 116, “a estrada da morte”, em direção a Mafra/SC. Logo que entro na estrada, o trânsito parado devido às eternas obras nesta estrada/suplício começa a andar. Saio no bolo de caminhões como em uma corrida maluca. Consigo me livrar dos caminhões com certa dificuldade, mas não consigo estar atento aos inúmeros buracos que aparecem como em um videogame na minha frente. Sobra um caminhão a 130/140 km/h na minha rabeta. Minha valente, robusta e decidida Harley me conduz a segurança dos espaços a nós destinados na estrada. Chego a Mafra e saio da BR 116 rumo a Rio Negrinho. No primeiro posto de gasolina, paro para tomar uma cerveja e relaxar. Sobrevivi: “One more time”.


Prudentópolis - PR, um pedaço da Ucrânia no Brasil, só que repleto de cachoeiras gigantes


Veja esse saltinho em Prudentópolis


Velhinho Sisudo

Rio Negrinho, São Bento do Sul, vou errando aqui e ali para fazer o caminho que quero, e fugir da rota dos grandes e numerosos caminhões que levam as nossas riquezas de uma ponta a outra do país. É incrível como as estradas que ligam as regiões mais produtivas do país estão, ainda hoje (2006), abandonadas. Passo por São Bento do Sul e me deparo com uma serra maravilhosa rumo a Jaraguá do Sul.

Chego a Jaraguá e sigo as placas para Pomerode. Paro em um posto e encontro membros de moto clubes locais que me indicam alguns caminhos. Deixo-lhes uns adesivos do Alma Livre, e sigo. Já bem cansado no final da tarde, me deparo com uma manifestação de moradores impedindo o trânsito com um caminhão pipa atravessado na pista, no início da serra que leva a Pomerode. Faltam 20 km e eu ali parado sob um sol escaldante. Penso em voltar para Jaraguá, mas a rainha da estrada chama alguns amigos para conversar. Três ou quatro pessoas se juntam em torno dela e um senhor, ao saber da minha provável rota rumo ao Sul do país, diz em tom sisudo e determinante: “Se tu queres ir para a Serra do Rio do Rastro, tem que descê-la para poder apreciar a vista e, assim, terá que sair de Pomerode por Timbó, etc..., etc... rumo as Serras Catarinense e Geral”. Faço uma reflexão, e ponho em dúvida o caminho indicado.

Fico impaciente, vou falar com um dos líderes da manifestação que está sobre uma motocicleta e, apoiando a manifestação, digo que se eles querem segurança na travessia de seus filhos para ir a escola do outro lado da estrada, eu estaria arriscando minha segurança se só conseguisse cruzar a serra a noite, sem conhecê-la, e no estado de cansaço em que me encontrava. Ele me tranqüiliza e diz que só estava esperando as equipes de reportagem irem embora para liberar a pista.



Alemanha brasileira e veloz

O caminhão começa a manobrar, me despeço rapidamente dos amigos instantâneos que me desejam sorte, e sigo serra acima. Chego a Pomerode, construções singelas, traços germânicos, um bonito cenário. Paro em um posto para pedir informação e uma mulher em um fusca para, atrás de mim, e buzina para que eu saia do caminho. Acho estranho, ligo a motocicleta e saio para a rua, onde carros passam em velocidade inadequadamente alta para o sistema viário de paralelepípedos. Acho que os alemães daqui andam muito nervosos.

Faço um reconhecimento da cidade e, de repente, estou em uma contra-mão: “Mão inglesa em cidade de origem alemã, assim não dá”. Acho a pousada, negocio um bom preço e vou descansar totalmente extenuado.

Acordo em dúvida sobre qual rumo tomar em direção a Serra do Rio do Rastro: irmãos do moto clube ou velhinho sisudo? Aposto em sisudo, e acelero. Como sempre, as mal sinalizadas comutações de estrada me fazem errar o caminho por metros, mas as pessoas dos lugares rapidamente me informam qual é o caminho certo.

Timbó, Indaial, e começo a subir uma serra muito bonita. Distraio-me um pouco e sou obrigado a “alicatar” os freios para não chapar em um caminhão á minha frente. Deparo com montanhas e vales maravilhosos onde o rio Itajaí-Sul serpenteia. Entro na cidade de Rio do Sul, sigo para Ituporanga onde está acontecendo a “Festa da Cebola”. Sigo atrás de um caminhão de Piedade/SP, cheio de cebolas. Tenham piedade de mim, que cheiro! Afasto-me de Ituporanga rumo a Alfredo Wagner, em uma das paisagens mais bonitas que já vi. Agradeço este momento a Deus, á Mirene, ao João Pedro, à minha mãe e pai, aos amigos e, é lógico, ao “velhinho sisudo”. Nesta paisagem e neste estado de espírito, assim que a motocicleta se desloca como um navio cruzando um oceano de belezas naturais com força e segurança, começo a perceber, ver, a diferença entre a minha sensação de tempo e a sensação de tempo das comunidades por onde passo. Sinto que o meu tempo vai apagando o espaço. Começo a entender melhor Milton Santos. Começo a perceber a prisão da aceleração de eventos criados pelo homem capitalista metropolitano. Percebo que terei de percorrer vários lugares em uma vida para poder me sentir bem, enquanto uma pessoa de um recanto isolado será feliz em um lugar durante sua vida. O homem urbano moderno está em todos os lugares e em nenhum lugar: “Lost in space”... Enquanto fico com estes pensamentos, a Harley manda bala na estrada, com firmeza e maestria.



Paisagem urbana de Timbó, SC


Serra Catarinense e Rio do Rastro

Subo a serra rumo a Urubici/SC e já sinto todo o esplendor dos campos de altitude. O vento fica mais forte e tenho de adequar a pilotagem ao vento de través esquerdo. Passo por um pequeno canyon e sigo. Chego em cima da serra e paro em um posto cheio de caminhões, para comer e me informar sobre a condição das estradas regionais. Sigo a Urubici em meio a uma paisagem estonteante. Paro a Harley sob uma placa: “Cuidado. Neve na Pista”, com um calor de vinte e tantos graus, o que é absurdamente muito para a região. Saio dos vales de Urubici e sigo em direção a São Joaquim, na região mais fria do Brasil. Sigo para a bonita região de Bom Jardim da Serra. A cidade tem uma igreja peculiar em forma de pirâmide alongada apontada ao céu. Paro em um pequeno café onde o dono me mostra fotos da estrada interditada com aproximadamente um metro de neve.

Sigo em direção a serra do Rio do rastro, e me deparo com um grande gerador de energia eólica. Paro no posto da Polícia Rodoviária e me informo sobre alguns caminhos de Santa Catarina para o Parque Nacional dos Aparados da Serra no Rio Grande do Sul. Eles me olham com ar estranho de quem não crê que um motociclista pode parar em um posto policial para pedir informações, tranqüilamente. Sou muito bem atendido e ganho um mapa detalhado da região.

Já no mirante da Serra, onde se vê o incrível canyon e o serpenteio vertiginoso da estrada. Tenho uma sensação de medo logo afastada pelo sibilar do motor da Harley pronto para mais uma missão. Chego na entrada da Serra onde se lê: “Estamos a 88 dias sem mortes nesta rodovia”. Desço em uma marcha reduzida para poupar os freios. É incrível, pois mesmo automóveis pequenos têm de invadir totalmente a contra-mão para fazer as fechadíssimas curvas. A paisagem é linda, redobro a atenção e, nossa: “santo torque para segurar a massa da moto ladeira abaixo”.

Chego a Orleans e me informo sobre o caminho para Gravatal. Tenho dúvidas se sigo para o evento motociclístico de Termas do Gravatal. Passo pelas termas e sigo a Tubarão para pernoitar, mas encontro um rush de trânsito bravo e resolvo voltar às termas e participar da abertura do evento. Encontro um hotel acessível com uma piscina termal. A lua está cheia, fico na piscina relaxando e pensando em qual rota traçar no dia seguinte.

Arrumo minhas coisas no quarto e sigo para o evento. Sou muito bem recebido pelos organizadores no churrasco de abertura do evento. Dali, seguimos em cortejo para uma festa em um sítio próximo. Fico uma meia hora, como um pouco de leitão a pururuca e sigo para descansar no hotel.



O visual do caminho para Rio do Sul/SC

O vale de Ituporanga - SC, paisagem de tirar o fôlego

Cuidado com o gelo da Serra Geral

Urubici/SC, o frio do alto da Serra

A maravilhosa e técnica Serra do Rio do Rastro e seu canyon alucinante

Serra do Rio do Rastro

O ótimo evento de Termas do Gravatal - SC organizado pelos irmãos Tubarões do Asfalto MC de Tubarão - SC


Pirei na Free Way

Manhã escaldante. Prendo os alforjes na moto e inicio uma longa jornada rumo a Garmado/RS. Chego a BR 101 e adentro em um universo infernal de estrada esburacada e mal sinalizada, com caminhões cheios de terra arremessada contra mim, junto com os tradicionais caminhões de carga e motoristas argentinos irresponsáveis. Ponho todas as minhas técnicas de direção preventiva em prática, rezo e torço os cabos rumo a alguma situação melhor de viagem.

Passo por um cara em uma moto relativamente antiga, com uma mochila de lona do exercito mais parecendo um Granado/Guevara, e começamos a andar em um ritmo semelhante para não nos sentirmos tão solitários. Coisa de motociclista estradeiro. Cruzamos as planícies litorâneas e entramos na região das lagoas e bocas de canyon do Rio Grande do Sul. A paisagem é linda, o calor é intenso e o trafego sufocante não me permite desfrutar totalmente da paisagem. Entro na “Free Way” rumo a entrada de Santo Antonio da Patrulha. O calor é quase insuportável. Sinto, como nunca havia sentido, o calor proveniente do asfalto e a pele ser queimada por baixo do grosso couro da jaqueta. Relaxo bastante apesar do calor desértico. Afinal, aqui no Sul do Brasil não é comum encontrar estradas com três faixas de rodagem em cada pista. Acelero e desencano.

Pirei na Free Way! Passo por um monte de placas informativas sem prestar atenção e quando saio do transe já havia passado a entrada que buscava. Sigo em direção a Porto Alegre ainda pensando em seguir para a região serrana de Gramado. Paro em um posto de gasolina no início de uma das estradas de Gramado e, refletindo sobre a minha rota futura, resolvo passar na concessionária Harley Davidson de Porto Alegre para trocar as pastilhas do freio traseiro que já estão um pouco finas. Vamos testar o poder do Harley Owners Group / HOG. Sigo as valorosas informações dos amigos do posto e chego à concessionária lá pelas 13:30hs. Dirijo-me ao chefe de oficina e explico a minha situação de trânsito em viagem com uma Harley e como membro do HOG. Sou prontamente atendido por um mecânico especialmente designado para executar o serviço. Todos da concessionária cooperam comigo sem stress, e de maneira eficiente. Fico agradecido e impressionado. Mudo tudo e resolvo ir até o Museu de Tecnologia de Canoas/RS.

Harley-Davidson de Porto Alegre/RS com os amigos Fabio, Diego e André


O museu de tecnologia

Saio da concessionária por volta das 15:00hs, sigo as informações que me passaram e chego no estacionamento do Museu lá pelas 15:30hs. Os funcionários mal treinados me informam que o museu estava fechado. Entro no grande estacionamento mesmo assim. Não andei quase 2000 km para encontrar um museu fechado em uma sexta-feira. Não consigo chegar até o museu, volto a bilheteria do estacionamento e eles me informam que eu precisaria deixar minha moto com bagagens há uns 300 metros do museu. Busco uma solução diplomática e não encontro. OK! Retiro um obstáculo do caminho, cruzo uma calçada, e lá está a Harley perfeitamente emoldurada na frente do moderno prédio de vidro do museu, sob um avião de caça que está no jardim.

O calor continua muito intenso. Adentro ao museu ainda sem saber direito o que encontraria. Sigo as orientações de iniciar a visita pelo último andar. Tenho 01:45 hs para a visita. Acho que é mais do que o suficiente, mas quando percebo o tamanho, beleza e primor do acervo de carros, motos, rádios, relógios, filmadoras, máquinas fotográficas, etc..., sinto que precisaria de uns dois dias para conhecê-lo direito. Fico maravilhado: 4° andar – Carros artesanais brasileiros de época, esportivos do piloto Emerson Fittipaldi; 3° andar – Carros americanos clássicos das décadas de 50, 60 e 70 (séc. XX). Os conversíveis são estonteantes. Fico indo e voltando, tentando observar o belo e valioso acervo e me arrependo de não trazer mais memória em minha máquina fotográfica.; 2° andar – Carros europeus e americanos das décadas de 10, 20, 30 e 40 (séc. XX). Sensacional !; 1° andar – Utilitários, carros econômicos, motocicletas, etc...

Faltam poucos minutos para o fechamento do museu e os técnicos e seguranças, felizes por terem no museu um motociclista de longa distância que se deslocou especialmente para a visita, me tranqüilizam falando que eu teria o tempo necessário para terminar de conhecer o acervo, e me questionam sobre a viagem, meu equipamento e minha motocicleta. Sinto-me feliz e justiçado. Termino a visita calmamente, ganho prospectos e uma boa lembrança do museu e de sua equipe. Saio do museu perto das 18:00hs, bate um forte e quente vento sudeste. As folhas e papéis voam. O tempo vai mudar!

A entrada do Museu, perdido na imensidão do campus, uma pequena grande gema da evolução da tecnologia.

Os belíssimos modelos de 1910

O side car na medida

Os loucos carros funerários da família Monstro


O surpreendente, maravilhoso, estupendo... Museu de Tecnologia da Ulbra, em Canoas - RS. Tenho de voltar para acabar de ver todo o precioso acervo.

Preciso falar com alguém que entenda o que estou sentindo. Em meio a locomotivas a vapor expostas no jardim, extasiado, ligo para alguns amigos. Mas onde estão eles? Deixo algumas mensagens e decido seguir a viagem rumando serra acima até as cidades de Gramado e Canela.

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