Alma E-Zine
São Thomé, O Resort De Pedra.
Uma viagem e introspecção de Matias Romero
Contém:
- Santos, SP
- Pouso Alegre, MG
- Cambuquira, MG
- São Thomé das Letras, MG
- Espaço Dois: O Mundo Vampírico
- Ventania
Santos, SP.
Julho de 2006.
São dez para as oito e faltam apenas vinte minutos para a saída do ônibus para Três Corações, no sul de Minas Gerais. Isso não me abalaria, se eu estivesse já na Rodoviária. Não estava. Estava no cais, ainda bem distante da plataforma de onde o ônibus ia sair. Olhava a câmera digital nervosamente para saber as horas, o que só fazia me deixar mais ansioso. Você espera uma eternidade por um ônibus que vai cortar a cidade pelo cais para que isso deixe a viagem mais curta, mas o tempo de espera por um ônibus desse faz com que às vezes isso não seja a melhor alternativa para se chegar a tempo. Sair mais cedo ajuda, mas quem consegue sair mais cedo com um tempo de espera desse pelo ônibus?
Beleza, cinco minutos para sair o ônibus e já vejo a Rodoviária. Não será desta vez que vou perder o ônibus. Aqueles procedimentos de saída, números na bagagem, sobre a barraca que peguei emprestado com o Giulius, adesivos, etc. A passagem interestadual a ser preenchida com número de poltrona, RG, número da cueca, essas coisas preciosas. Aqui o leitor do Alma Livre Free Soul Riders fica preocupado. Nenhuma linha a respeito da minha motocicleta, que não tenho (e já ficou claro que iria de ônibus mesmo). Membro do Alma Livre Free Soul Riders sem moto procura emoção nas estradas do Brasil, exatamente como os irmãos que equipam suas motos para um rolê em Joanópolis ou Serra da Graciosa, mas sem moto. Um outro modo de viajar, daqueles que não sabem andar de moto, mas sabem muito bem o valor do vento fresco da estrada no rosto, os diferentes ares de um país que é diferente a cada curva, a cada centímetro. A loucura é o meu país.
Pouso Alegre, MG.
Aqui, a única pausa para comer em todo o percurso. Geralmente eu fico no Buck, cadeia alimentar da cidade, com ótimas empadas de palmito, coisa que vai se tornando mais rara à medida em que se avança para o sul de Minas. Acendo um cigarro depois da refeição, na paranóia de cada movimento em volta do ônibus - por conta da saída do danado, o motorista às vezes fica de avisar e não avisa - e olho para a tarde que vai avançando, o sol bonito, mas tímido do inverno.
Cambuquira, MG.
Aqui é preciso ficar esperto. Ao passar o trevo que também leva a Lambari, avisar o motorista para parar na fonte do Marimbeiro, bairro onde se encontra a casa de minha tia. E ele pára, desço, agarrado às minhas coisas, acendo um cigarro em frente à fonte para relaxar da viagem e tomar coragem para subir ao topo da colina onde a casa fica. Encontrar o povo, seguir juntos para São Thomé das Letras. Viver a vida que só podíamos contemplar de longe em outras épocas do ano. Estou junto de tudo isso agora. Do ar de eucalipto que domina a paisagem. Das noites de céu absurdamente estrelado de Minas Gerais. A tarde se encaminha para seu fim, e com ela a minha paciência de tomar coragem para subir. Subo e encontro o povo em pleno café da tarde. Aqui se colocam os assuntos cambuquíricos em dia, quem chegou, quem se foi para sempre, para quase sempre, para quase nunca mais.
Espero por Armando e Lujiana, o casal 20 do pedaço. Eles chegam da cidade e reclamam que eu não os avisei formalmente de minha chegada. Andavam eles à minha procura pela Rodoviária da cidade de Cambuquira. Daí, nos dedicamos às costumeiras baboseiras de quem há muito não se vê e dentro do altamente curtível ambiente em que se revê.
À noite, toca o telefone. Ninguém mais ninguém menos que Carlão, o Mestre Do Mundo Carlônico. Carlão, sua esposa Carloa e seu sobrinho Marcelo avisam de sua chegada à Cambuquira, em muito breve. Apenas uma questão de horas e teríamos à nossa disposição toda a bizarria que o Mundo Carlônico poderia nos proporcionar. Acendemos uma fogueira para apreciar a lâmpada elétrica e nos deixamos conversar por horas sobre as distâncias do Universo.
As cinzas da fogueira ainda fumegavam quando ouvi vozes do lado de fora do quarto onde estava, quarto com saída independente, que dava direto para o exterior da casa de minha tia. Nada menos que Carlão, sua esposa Carloa e seu sobrinho Marcelo, chegando diretamente de Carlópolis para nos trazer alegria e bizarria total em doses maciças. Porque Carlão sempre foi e sempre será a alegria da rapaziada. Eles chegam animados, com exceção de Carloa, que quer dormir o mais rápido possível e reanimamos a fogueira, que já estava caidaça da ação do sereno da noite. Sentamos-nos por ali e retomamos a conversa por horas sobre as distâncias do Universo.
Paulictro liga de São Thomé das Letras para saber se estamos a caminho, ansioso por nossa chegada. A gente fica torturando o Paulictro, dizendo que tudo aqui está tão bom que ainda estamos decidindo se iremos ou não para São Thomé das Letras.
Dia seguinte, saída para São Thomé das Letras, bem tarde, todo mundo levando horas para localizar coisas que nem deveriam ter saído de suas mochilas.
São Thomé das Letras, MG.
As montanhas nevadas surgem no horizonte uma vez mais. Não há picos nevados no Brasil, dirá o leitor já espantado com o rumo tomado por minha narrativa. E não há mesmo, a pedra branca de São Thomé das Letras espalhada em montes de cascalho servido por sobre os morros é que dá essa impressão aos que sobem até onde estamos agora. Uma vez mais, retornamos a São Thomé das Letras, terra de tantas histórias vividas juntos. Uma história em contínua progressão. E mais um capítulo se aproximava rápido agora. Casa de Inês, onde vivemos momentos e loucura e bizarria, seu (agora ex) marido Vítor Donizeti de Castro, do clã dos Castro que, junto ao dos Rosa e ao dos Medeiros, foi o formador desta cidade de São Thomé das Letras. É onde o termo família tradicional perde aquele costumeiro sentido de riqueza que se empresta ao termo sem se pensar e assume sua verdadeira identidade. Famílias que formaram uma comunidade juntas em tempos que agora se perdem na memória. Tradição é tradição.

O panorama que se vê a partir da Pedra Do Disco,
arredores de São Thomé das Letras
São Thomé das Letras é duas cidades em uma: a que se vê ao chegar por Tres Corações, a 1444 metros de altitude e a que se vê ao chegar por Conceição do Rio Verde, uns 1200 ou 1300 metros de altitude, porção rural da cidade com seus sítios e fazendas, conhecida como Sítio Cantagalo. É nesta parte da cidade que uma outra parte do clã dos Castro vive. No sítio de seu Noel de Castro, o Camping do Noel, terra de gente boa e hospitaleira, que vive do turismo que agora vem trazendo mais gente para o Cantagalo. E aqui estamos nós, para dez dias de loucura.
A bizarria já começa ao terminar de montar minha barraca: descubro que Carlão trouxe um pedaço de nylon rasgado sob o qual pretende hospedar seu sobrinho. Eu perguntei a ele como pretendia que o menino dormisse naquele frio e com todos aqueles pernilongos e Marcelo acaba se mudando para a minha barraca.

À direita, "barraca" onde Carlão pretendia "acomodar" o sobrinho.
Instalados, nosso pensamento se volta para as belezas inenarráveis do cerrado bem à nossa frente no mesmo sítio onde estamos, as imemoriais candeias, árvores do cerrado produtoras de mil e uma substâncias úteis ao homem, mas que aqui nos fascinam pela própria inutilidade, o apenas estar ali, belas e perfeitas testemunhas de um dos ecossistemas mais fascinantes do Brasil. Sem falar num sem-número de cachoeiras belíssimas na região, as que exploramos e as que não exploramos. Algumas delas:
SobradinhoVale das BorboletasAntares- Chuva
- Óleo
- Ninfas
Shangri-láLuaParaísoVéu de NoivaFlávioEubiose
Lista das cachoeiras de que me lembro. Aquelas riscadas já foram visitadas por mim, uma ou mais vezes, em diferentes ocasiões e épocas do ano.
Esta lista está longe de ser completa, mas são os nomes que agora me vêm à memória. Água que descerá a montanha cedo ou tarde, indo até mesmo alimentar o Circuito das Águas e suas maravilhosas fontes hidrominerais em seu caminho infinito para o mar.
Aqui eu me lembro dos laços que nos prendem a São Thomé das Letras. Pessoas que conhecemos e principalmente pessoas com quem comungamos o respeito à natureza, como Rosângela, seu marido Cláudio - este, um dos filhos do finado proprietário Noel de Castro -, Alexandre e muitos outros. Há quinze anos que a gente vem para cá todos os anos - eu às vezes mais de uma vez por ano, o que me faz mais que um turista e menos que um morador, algo entre esses dois conceitos, imagino.
Seu Noel é figura digna de nota na cidade de São Thomé das Letras. Natural de Cruzília, cidade de pecuaristas ao lado de São Thomé, estabeleceu-se na cidade no sítio que hoje leva seu nome. Foi ele o iniciador da idéia do camping, o pioneiro em hospedagem no Sítio Cantagalo. Um dos pioneiros também no ecoturismo, provavelmente sem saber suas tecnicalidades, mas imbuído de intuição que vai muito mais além. Não que antever a vocação natural da cidade para o ecoturismo fosse tarefa para visionários exclusivamente, mas era difícil sustentar uma idéia como a da ecologia numa cidade dominada pelo ideal extrativista e predatório das mineradoras. Mas era, na prática, o que ele defendia: sua aposta em tornar o sítio em um camping foi semente lançada ao vento que vingou, no final.
Indispensável subir até a cidade à noite, deliciar-nos com a música praticada em bares da moda - moda essa à moda de São Thomé das Letras - como o Espaço Dois, como o bar do Maurão. Indispensável para os outros. Não faço a menor questão, mas vou. Fico lá com eles, barzinho, sempre as mesmas músicas de Raul Seixas, Alceu Valença, Ventania, mas a tradição parece deliciar a todos. Eu mesmo não reconheceria São Thomé das Letras sem esses atributos, para ser honesto.

Esta cidade esta noite.
Aspecto da noite de São Thomé das Letras no perímetro urbano.
A noite aqui é noite. Como dizia Monteiro Lobato em O Saci, obra prima do mistério infantil brasileiro, "em casa, acende-se a luz e o que é da noite? Aqui fora não, temos a noite em todo o esplendor de seu mistério". E ele está certo. Está, no presente, porque certas coisas são intemporais. Vencem o tempo. O céu gira preguiçosamente em torno, as estrelas mudam de posição continuamente, todo o tempo.

Na fantástica Casa Da Pirâmide, da esquerda para a direita:
Marcelo Della Mea, Matias Romero, Carla Cunha, Carlos Della Mea
A Via Láctea aparece sobre o chalé onde estão Paulitro e sua esposa Alexandra, já em São Thomé das Letras há algum tempo. É bom estar na varanda. Contemplar o Universo que se descortina ali por cima. Observar o movimento nas estradas, pequenos carros-vagalumes que descem a sobem a serra indo e voltando da cidade. Ali, você pode identificar até um amigo, descendo a serra rumo ao sítio, até onde você está. Antever a chegada, se preparar. Se esconder nas sombras ao redor da casa, dar um susto nos recém-chegados. Eles estão lavando suas larvas minúsculas, Isabel e Júlia. Passado o processo, nos reunimos na ramada de Paulictro que é como ele chama a varandinha em frente ao chalé. Comentamos as muitas viagens que já se passaram, a chegada até aqui, as atrações da cidade, que são sempre as mesmas e que certamente estão esperando por nós. E que certamente vão se iniciar mesmo que estejamos ausentes.

Bosque onde acampamos no Camping do Noel
Aqui no bosque - primeira vez em quinze anos acampando no sítio de seu Noel e nunca tínhamos ficado dentro do bosque - a noite é escura. A Lua existe, mas atravessa as copas das árvores com dificuldade. O frio é absurdo e a cada ponta de frio, me lembro do sobrinho de Carlão e do que lhe aconteceria se estivesse naquele trapo que o Carlão desajeitadamente chamava de barraca.
Fazemos uma fogueira, com madeiras secas catadas aqui e ali, fogueira que ilumina agora a clareira onde estamos. Cláudio nos deixa suportes de bambu com latas no topo para tochas. A querosene queima bem a princípio, mas depois as tochas nos deixam na mão. E no escuro. As lanternas são indispensáveis aqui em noites sem lua; só os donos da casa parecem andar com desenvoltura naquele breu, conhecem os caminhos de olhos fechados. O aprendizado que é natural, que vem de uma vida inteira trilhando aqueles caminhos de cá para lá. Devagar, fora de qualquer compromisso, a fogueira se extingue, nos deixando a Via Láctea para iluminar nossos caminhos em São Thomé.

Uma das fogueiras que se fazia para espantar o frio da noite.
Nada de roda de viola, que ninguém tocava, só roda de besteiras, ao som lisérgico de Cocteau Twins.
E então, vemos que é hora de sair, ir à cidade, para nos deleitar com a música hippie dos muitos hippies que ali tocam seus violões e guitarras para diversão sua e de todos. Raul Seixas, Ventania, Alceu Valença, Beatles, Belchior, Zé Geraldo, Zé Ramalho, Jimi Hendrix e tantos outros.
O Espaço Dois está cheio esta noite. O bar se localiza no início da elevação de pedra onde ficam a famosa Casa da Pirâmide, o Cruzeiro e o Mirante (que carinhosamente apelidamos de Pirante, como se ele fosse uma junção distante da Pirâmide e pelo visual da mata ao redor dele). Lugar onde nada mais deveria ser construído, o topo da cidade foi alcançado até onde o caminho se encontra com a Pirâmide. O Dois é um avanço assim. A própria Pirâmide era, desde sua construção. Mais um pouco, o povo estará construindo suspenso sobre o vazio depois dos penhascos.
Se compararmos o nível e freqüência da loucura etílica na cidade (para ficar só na etílica, sem entrar na canábica, lisérgica ou psilocíbica), veremos que pouquíssima gente morre na cidade. Os casos são tão raros, para falar a verdade, que se tornam lendas. Como a lenda da morte da proprietária da única casa de ervas da cidade, Casa Xangô, que quebrou o pescoço e morreu na Pirâmide, atirada longe pelo deslocamento de ar provocado por um raio caído. Sim, exatamente isso. Não foi o raio, mas a queda devido ao deslocamento de ar.
A frase acima abre espaço para lotes de especulação. Teria o deus do trovão levado sua discípula fiel para junto dele? Teria ela se tornado fiel demais ao deus para permancer entre os profanos? Ou teria tudo isso sido mais uma irritante coincidência aleatória de bosta, quebrando novamente com sua chatice científica todo o sabor do mistério que pudesse existir ali?
Espaço Dois: O Mundo Vampírico.
Tibil domina o microfone nas noites do Dois. Não importa se é ele tocando ou não, não importa o show, ele sempre dá um jeito de subir ao palco e falar alguma bobagem etílica, mesmo que esteja bêbado demais para se sustentar em pé sobre o palco diminuto do bar, mais parecido com um patíbulo. Quando isso acontece, temos o homem caindo de costas, aterrisando sobre as garrafas de pinga e cerveja, quebrando vidros em sua descabelada trajetória para o chão, com o Dois vindo do bar para recolher o que sobrou do bardo letrense (e do palco). A fala incompreensível, os temas mais ainda, quando ele dispara suas inesquecíveis canções de horror:
Poucas brigas no bar, geralmente mulheres afastando pretendentes no braço e vociferando xingamentos. Pela quantidade de malucos, se adivinharia muito mais encrenca, mas são raras. A paz, amor e harmonia coexistem gostosamente nesse bar esquecido de Deus e lembrado pelos homens. Bandas se apresentam, músicos avulsos de várias cidades, músicos de todos os treinamentos possíveis, até mesmo os que não sabem ao certo a quantidade exata de cordas em um violão. Isso deixa certas noites no Dois um pouco parecidas com um karaokê, já que virtualmente qualquer um pode tomar o palco quando não uma atração como Ventania, o rei do rock hippie do pedaço.
Ventania: o bardo das noites de luar
(e de luau).
Nascido em Santa Catarina, morador de São Vicente, SP por alguns anos, Ventania se encontrou em São Thomé das Letras definitivamente. É o grande ídolo das noites letrenses e ameaça se alastrar, como virose bicho-grílica por muitos e muitos outros pontos do país. Fácil reconhecer o homem e sua verruga, sob o chapéu de bruxo feito de couro, que ele usa como carteira. Tal como Milton Nascimento nos tempos de sua inseparável boina, bastaria Ventania tirar seu chapéu para passear incógnito nas noites de São Thomé. Riso fácil, simpatia e solidariedade fazem desse cantor um personagem singular nessa já singularíssima cidade de São Thomé das Letras.
Espaço aleatório
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